Na verdade ele não sabia ao certo o que pensar, sua cabeça girava em órbita enquanto fixava, inerte, o olhar numa folha impressa. A impressão era de que a vida daquele homem havia partido, mas seu coração mantinha, pulsante, o sangue que aquecia seu corpo, frio. Todos os amores, todas paixões, todas transas casuais, todos beijos, todas carícias, tudo passava em seqüência frenética na sua frente. Sua vida já não era passível de sentido, acabou tudo ali, naquelas letras, naquele sangue. A morte-viva que consumia todos os poros do seu corpo, compunha uma caminhada longa e penosa diante da dura amargura do arrependimento.
Ergueu como pôde os olhos, dobrou com cuidado o papel e o guardou no bolso, seguiu. Mas seguir pra onde quando tudo se acaba? A pergunta moldava suas feições: quantas horas, dias ou vidas, dentro desta mesma vida, seriam necessárias para absorver tudo aquilo. Não seriam absorvidas, ele sabia, ele temia, ele chorava. Tirou do bolso um maço, pegou um fino cigarro e o acendeu. Tragou uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove vezes e o jogou fora. Oscilou entre uma nova baixada de cabeça e um telefonema. Optou pelo segundo. Rapidamente o celular já estava em sua mão, o mundo em uma ligação. Ligou. “Alô, a Fernanda está?”, sua voz fria encobria de pura angústia as ondas de voz que dali saíam. Do outro lado da linha, a resposta foi rápida: “Fernanda só sai do serviço as nove e meia, ainda são sete”. Agradeceu e desligou. Verificou a hora e decidiu ir ao encontro da mulher, foi.
Entrou no primeiro ônibus que parou, andaria o que fosse preciso, precisava andar. Ficou de pé logo a frente da porta, olhava cada pessoa que passava pela janela fixamente, desesperadamente. Desceu correndo poucos quarteirões depois, com as mãos na cabeça como num grito de “por quê?”. O celular tocou, era ela. Atendeu com prontidão, embora sua voz desmentisse a euforia que interpretava. Tentou disfarçar a dor, mas o alô já saiu tremido com a lágrimas que, compulsivamente, começaram a brotar. Fernanda entendeu a gravidade da ligação, perguntou onde ele estava e mandou que a esperasse, chegaria o mais rápido possível. E chegou.
Correu por quadras e mais quadras, atravessou dois bairros daquela grande cidade, tudo para fazê-lo sorrir. Virou a esquina da rua Sete de Setembro e o encontrou ali, sentado, petrificado. Colocou um casaco vermelho que sua avó havia feito, sobre os ombros do homem como num abraço simbólico de piedade. Perguntou o que houve, mas por ora a resposta veio líquida.
“Vê...”, ele disse, enquanto esticava o braço para entregar o papel à mulher. Ela leu, sacudiu a cabeça negativamente e exclamou um não, só. Só um não para dispersar toda a dor daquilo, toda morte, raiva, desgosto, perda, enfim tudo que implicava a leitura daquilo. Ela ficou de pé, olhou dentro dos vazios dele e virou. Caminhou, voltou, caminhou, voltou. Sentou, pensou, levantou. “Eles devem ter errado!”, “dizem que esse exame pode dar positivo em algumas pessoas saudáveis...”, desistiu. Acontece que não havia o que falar, era como se tudo tivesse acabado, e realmente acabou. No alto de seus mais altos saltos, ela esfriou o olhar. Se há magia nesse mundo, aquele foi um feitiço de retirada de alma. Um sim no papel, representava um não ao destino. O amor morreria ali, junto à piedade dela e a dor dele. Foi velado em uma rua vazia, por dois corpos vazios
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Lucas Boaventura
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